sábado, 5 de fevereiro de 2011

Discurso de posse de Nelson Vaz na Academia Mineira de Medicina

Nelson Monteiro Vaz
Discurso de posse como membro da Academia Mineira de Medicina,
em 31/01/2011 - Belo Horizonte



Senhor Presidente da Academia Mineira de Medicina, Senhor Vice-Presidente, Prof. Enio Cardillo Vieira, meu Padrinho nesta Academia, Prof. Tomaz Mota-Santos, Diretor do ICB da UFMG, demais autoridades presentes, Senhores Acadêmicos, minha querida companheira Cláudia Carvalho, meus familiares, amigos e convidados, Senhoras e Senhores,

Cabe-me agradecer a distinção que me trouxe até aqui - algo que farei constrangido pois não sou merecedor desta honraria, nem sequer me entendo como médico. Como explicarei, sou apenas mais um aprendiz de Biologia e falarei de coisas que todos nós já conhecemos de sobra.

Sobre o Patrono da Cadeira nº73 que passo a ocupar, Creso Agrícola Barbi, são sucintas as informações constantes no Manual da Academia, informações que agora presto em sua homenagem. Creso Agrícola Barbi, nasceu em dezembro de 1919, em Palma, cidade da Zona da Mata, diplomou-se em Medicina em 1944 pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais e especializou-se em Oftalmologia, trabalhando em seu consultório e no Hospital São Geraldo e no que hoje é o Hospital João XXIII. Foi um dos fundadores do Centro de Oftalmologia de Belo Horizonte e prestava também serviços no Hospital Santa Mônica, de Sete Lagoas, para onde se deslocava ao final de todos os meses. Foi em Sete Lagoas que perdeu a vida precocemente, em um acidente de automóvel, ainda aos 50 anos de idade.

Em meu agradecimento ao meu Padrinho, Prof Enio Cardillo Vieira, quero estendê-lo a vinte e sete anos atrás, ao ano de 1984, quando me transferi da UFF, de Niterói, para a UFMG. Naquela ocasião, ao me receber na UFMG, o Professor Ênio cedeu grande parte de seu laboratório para minha instalação no Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB. Ele repete que não fez mais que sua obrigação, pois o laboratório nunca foi “dele” e sim do Governo Federal - uma opinião com a qual poucos concordariam, principalmente, hoje em dia. Acho que o Prof. Ênio tem um plano para esta Academia. Minha entrada, assim como a do Prof. Sérgio Pena, que me antecedeu, e de outros cientistas básicos que o Prof. Ênio passou a arrebanhar para cá, faz parte de um plano de introduzir nesta casa uma parte da revolução no conhecimento científico ocorrida nas últimas décadas.

Embora me sinta grato e honrado em ser recebido nesta Academia que simboliza conhecimento e autoridade, considero que a humildade é um item de sensatez em uma agenda científica. Reconheço que, realmente, o que sei é muito pouco. Já disseram que o oposto de um cientista é um jornalista, que quer saber cada vez menos sobre mais coisas, cujo ideal é não saber nada, sobre tudo. Eu como, cientista que sempre fui, sei quase tudo sobre quase nada.
Nesta ocasião, lembro-me muito de meu pai, que me lavava a passear depois do almoço de domingo na casa de minha avó e apontava como as montanhas, como pedras derretidas, se dobraram da maneira que se dobraram; e virava as pedras na praia para me mostrar os bichos embaixo delas. Estas visões, de montanhas rubras e estrelas do mar de nove pernas, marcaram muito minha maneira de ver um mundo.

Muito mais tarde, encontrei um segundo pai em Haity Moussatché, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, e, ainda mais tarde, em Santiago, cientistas chilenos - Francisco Varela, Humerto Maturana e Jorge Mpodozis - que, de novo me abriram os olhos para outros mundos.

Mudei meu modo de ver muitas vezes mais na convivência com muitos estudantes, em Niteroi, e principalmente aqui, na UFMG, com os quais aprendi muita coisa.

Lembro-me também muito de Darcy Ribeiro, idealizador da Universidade de Brasilia, que era seu Reitor quando me mudei para lá, em 1965, antes dela ser destruída pelos militares (depois ela foi re-fundada, mas não como a mesma coisa). E lembro Darcy Ribeiro por muitas razões. Em um discurso corajoso que fez na reunião da SBPC, em 1968, chamado “Sobre o óbvio”, Darcy Ribeiro disse algo notável:

"Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu"

Eu também fracassei em quase tudo. Mas prezo muito meus fracassos.
Tentei fazer uma teoria sobre o adoecer baseada no modo de operar do póprio organismo e não consegui que me ouvissem. Talvez aqui, nesta Academia, encontre ouvidos que a ouçam.

Tentei fazer com que as aulas deixassem de ser discursos dos professores e passassem a responder perguntas de aprendizes, não consegui. O que tornou Sigmund Freud famoso foi exatamente a sugestão de que os psiquiatras parassem de falar e dar conselhos a seus pacientes para deixar que os pacientes falassem. Meu pai, que trocou 15 anos de pediatria pela psicoterapia de crianças, falava em psocoterapia para se referir à brutalidade tantas vezes presente no trato com as pessoas em geral, e principalmente com as crianças. O cenário pedagógico, aquilo que poderia se passar durante a aprendizagem, se assemelha muito à situação terapêutica em psicologia, sempre que conseguimos romper com a massificação do ensino, que é nossa forma coletiva de psocoterapia.

Na realidade, como biólogo, poderia lhes mostrar que o ensino é impossível. Eu lhes asseguro que aquilo que chamamos de ensino não acontece nunca - mas a aprendizagem é inevitável. A aprendizagem é contínua e isso nos confunde e faz pensar que o ensino existe. Somos todos aprendizes e, como aprendizes, aprendemos sem cessar; aprendemos uns com os outros. Estamos aprendendo agora, todos nós. Se eu fizesse um segundo discurso de posse, ele seria diferente porque estou aprendendo com vosso silêncio; enquanto falo, estou lendo vosso silêncio, vossos gestos, vossos rostos, pois somos todos especialistas em emoções. Um professor ou professora é aquela pessoa disposta a abrir um espaço genuíno de convivência, porque aprendemos uns com os outros, con-vivendo.

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Naquele mesmo discurso, em 1968, Darcy falava de “tretas” de Deus, como a que nos faz pensar ,por exemplo, que o Sol gira em torno da Terra,. Muita gente sofreu para provar que é ao contrário.

Mas a maior treta de Deus é nos fazer acreditar que vivemos em um mundo onde as coisas são estáveis e não mudam. Acordo a cada dia e lá está o meu jardim. Acordo para um mundo de coisas conhecidas e acontecimentos previsíveis. O noticiário dos jornais e da televisão destaca os acidentes, as novidades, o excepcional, aquilo que não costuma acontecer.

Na Biologia é assim também: nos preocupamos principalmente com as mudanças. No estudo da evolução, o surgimento de novas formas e novas espécies de seres vivos é a preocupação dominante. Sabemos que os seres humanos e os chimpanzés descendem ambos de um ancestral comum que existia há 6 milhões de anos atrás e se transformou e nós e nos chimpanzés; nos preocupamos muito em entender como foi que nós nos transformamos nestes macacos que falam, e os chimpanzés se transformaram em outra coisa.

Por outro lado, quase não nos preocupa explicar por que os tubarões (os Elasmobrâquios) conservam a mesma forma há 400 milhões de anos, embora seu material genético (seu DNA) esteja em contínua mudança em um ritmo comparável ao de humanos e chimpanzés.

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Além disso, a constância das entidades que distinguimos em nosso dia-a-dia é ilusória: ela oculta um turbilhão incessante de mudanças. As mulheres, mais que nós homens, suspeitam de que essa constância é ilusória; elas notam com mais facilidade as fases da lua, o crescimento das crianças e a vida a por rugas e cabelos brancos nas pessoas.

A conservação da forma não parece demandar explicações. Somos fascinados pelas transformações que ocorrem durante o desenvolvimento, que levam do ovo à galinha, ou, pela metamorfose da larva em borboleta ou do girino em sapo adulto; nos preocupa muito menos que o sapo adulto mantenha sua forma embora, ao existir, ele troque quase todas as suas células por outras. Isto não parece constituir problema algum.

Esta realidade feita de coisas que nos parecem estáveis é amplamente aceita por todos, mas encerra vários problemas. Parecemos formados de cabeça, tronco e membros mas, na realidade, somos formados de células, que são invisíveis a olho nú. Precisamos de um microscópio para ver como somos. Todos os animais e todas as plantas são formados de células, mas a enorme maioria dos seres vivos - os micróbios - vivem suas vidas como células isoladas umas das outras. Há micróbios nas nuvens, enterrados por quilômetros no fundo dos oceanos; milhões deles vivem sobre a nossa pele e em nossos intestinos.

Os seres vivos formados por muitas células, como nós, são turbilhões de mudanças, trocam incessantemente suas células por outras. Esta mudança não pode parar sem que o ser vivo se desintegre. Somos como rios, em contínuo movimento. O rio é uma forma de mudar, um fluir. Detenha o rio e ele desparece, se transforma em lago. Nós, os seres vivos, somos outras formas de fluir. Nos parecemos mais com rios e redemoinhos que com estátuas. Nada é estável: a constância das entidades que distinguimos em nosso dia-a-dia é ilusória.

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Creio que, em parte, a explicação de como isto se dá está em uma canção cubana, do compositor Silvio Rodriguez, que Chico Buarque gravou, e se chama Pequena Serenata Diurna. Os versos dizem:

Amo a una mujer clara
que amo y me ama sin pedir nada
o casi nada
(que nos és lo mismo)
pero és igual

(“No és lo mismo/pero és igual”) Não é a mesma coisa, mas é como se fosse, é equivalente. Durante anos, tenho insistido em que estes versos refletem uma lei do viver que nos ajudaria a compreender melhor a Biologia, em geral, e em particular, a Imunologia, que é minha área de trabalho. As coisas podem ser substituídas por outras que lhes são equivalentes e, assim, parecer que não mudaram!

As coisas são mais dinâmicas do que parecem. Estou aqui de pé, falando e parece que estou parado. Mas, para que eu não me mova, meus músculos estão mantendo um equilíbrio extraordinário. Não tenho a menor idéia de quais são esses movimentos; nem dos movimentos que minha laringe e minha respiração coordenam para que eu fale como falo agora.

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Não percebemos isto porque existimos em dois domínios simultâneos: do lado de dentro somos organismos de Homo sapiens, primatas, grandes macacos sem pelos. Do lado de fora, somos pessoas. E estes dois domínios, estas duas maneiras de ver, são separadas, não têm áreas em comum. Saber o que se passa em um desses domínios, não permite saber o que está se passando no outro. Saber o que se passa no organismo, não permite saber o que está se passando com a pessoa; e vice-versa: o que a pessoa faz não nos informa sobre seus órgãos e tecidos.

O meu mecânico de automóveis - o China - identifica precisamente a causa dos defeitos que peço a ele que resolva no meu carro, porque ele tem uma larga experiência em correlacionar defeitos no deslocamento do automóvel pelas ruas e no som do motor, com detalhes na operação de suas peças. Então, ele abre o capot, e mexe em algo e tudo volta ao normal. Por isso, levo meu carro sempre ao China e não a um mecânico iniciante, que não fez ainda estas correlações entre o lado de fora e o lado de dentro do automóvel.

E os médicos, são como mecânicos? Às vezes sim, às vezes não. Muitas vezes vamos ao médico, ou ao dentista, com a esperança que eles mudem nossa estrutura, mudem nosso corpo, que nos tratem com máquinas que conhecem bem. Mas também queremos que nos conheçam como pessoas e nos tratem com respeito e carinho, que nos ajudem quando estamos confusos e ansiosos.

Sei que muitos médicos na audiência começam a ficar inquietos com o que digo. Por isto, vou voltar para a imunologia, que é o que conheço um pouco melhor.

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Todo mundo acredita que o corpo nos defende e forma anticorpos contra micróbios e que é assim que funcionam as vacinas anti-infecciosas. Mas esta maneira de ver confunde o lado de dentro com o lado de fora .O corpo não pensa, portanto, não distingue o que é estranho do que não é; o corpo é incapaz de tomar decisões e de mobilizar componentes em sua própria defesa. Isto ocorre automaticamente, como parte dos mecanismos de construção do corpo.

O corpo não funciona da maneira que nós, como pessoas, funcionamos. O corpo não pensa, não faz planos, não tem memórias - a não ser que eu veja cicatrizes como “memórias” do corpo. Então, eu não acredito que o corpo possa fazer anticorpos; e também não acho que as vacinas funcionem assim. Se tivesse mais tempo, lhes mostraria.

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Este contínuo jogo entre constância e mudança é fascinante. Do ovo das galinhas continuam a surgir galinhas, e dos ovos que os gatos ajudam a formar dentro das gatas, ainda surgem gatinhos - uma constância que oculta muitas mudanças.

O biólogo chileno Jorge Mpodozis (2010) afirma que a pergunta a responder não é sobre os componentes, nem sobre a mudança em si, mas está naquilo que se conserva naquilo que muda. Aquilo que um rio conserva, embora mude continuamente. Nos seres vivos, o que se conserva é um modo particular de se transformar na história, como a lagarta se transforma em borboleta; como o girino se transforma em sapo, e o ovo no pinto, e este na galinha. A gainha continua mudando, por dentro, embora por fora pareça que não muda mais. Em vez de perguntar “como as coisas mudam” , deveríamos perguntar: “como se conservam os processos da maneira que se conservam”. Como entender aquilo que se conserva naquilo que muda.

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Amanhã de manhã, olharei o meu jardim como um lugar conhecido que está lá como costuma estar. Mas, em um clima como o nosso, um gramado é uma monstruosidade. Para mantê-lo, gasto muita energia e outros recursos para destruir e controlar as ervas, arbustos e árvores que cresceriam naturalmente ali, e realmente crescem quando deixo gramado mudar por si mesmo. Um gramado é uma aberração das condições naturais e elas não nos obedecem. Por isso, precisamos tratar de nossos jardim de maneira perpétua.

Hortas e pomares são também aberrações. E mais, a agricultura, a invenção humana fundamental que desencadeou a explosão populacional e criou nossa “civilização”, desafia as condições naturais. As plantas que cultivamos precisam ser protegidas de um grande número de outros seres vivos. A agricultura, assim como a jardinagem, é incompatível com o equilíbrio que existiria em condições naturais. Deixadas a si mesmas as coisas mudariam de forma diferente.

Os cenários que imaginamos como “naturais” são criações da mente humana. O que imaginamos como um cenário ideal só surgiria às custas da invasão e destruição de condições verdadeiramente naturais. Onde quer que seres humanos tenham se estabelecido, ocorreram estas invasões que “humanizaram” o lugar. O ideal estético humano mostra uma natureza que foi domada, disciplinada, talvez com um pequeno toque de vida silvestre. Um lugar lindo como o Inhotim, requer um exército de jardineiros para “corrigir” continuamente um cenário que a natureza insiste em mudar. Deixado a si mesmo, o Inhotim desapareceria.

Mas, acima de tudo, um ambiente é “saudável” quando ele ainda não perdeu sua capacidade de manter e regenerar a si mesmo naturalmente, quando as atividades humanas ainda não interromperam o fluir de processos naturais de auto-manutenção. Parece óbvio que não entendemos e não sabemos respeitar estas condições naturais de auto-manutenção. O turismo e a visitação a parques, como o Inhotim, ou a praias silvestres por um público numeroso, mostra que a presença humana é sempre devastadora.

Precisamos de uma grande mudança ética. Mas, para isto, precisamos compreender melhor de onde viemos, onde estamos e para onde vamos.

Muito obrigado por vossa atenção.

Location:Belo Horizonte

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