sábado, 20 de junho de 2009

Iniciativa Laboratório Tupi-Nagô: Arte e Ciência, misturadas, para o cidadão

Depois de um século XX de dadaísmo, construtivismo, tropicalismo e outros ismos. Depois de duas bombas atômicas, do projeto genoma, da clonagem de grandes mamíferos. Depois da explosão de conhecimento especializado das super universidades, dos renomados super-especialistas que são capazes de resolver qualquer coisa, fica uma pergunta: e o cidadão? Esse anda mal, anda agredido e assassinado por políticas de estados facistas, mal-informado por uma mídia mentirosa, enganado por uma classe política corrupta, mal-tratado por uma medicina tecnológica caríssima e negligente. Como será isso possível se temos tanto conhecimento sobre tudo, se descobrimos os segredos mais profundos das moléculas, dos matizes de cor, da hipnose marketológica que determina os desejos e afetos? Temos uma montanha de conhecimento especializado e ainda assim, muito pouca compreensão sobre o que nós somos, o que é o nosso meio-ambiente e nossa sociedade.
Há excelentes idéias sobre nossa verdadeira natureza, sobre o que é o nosso mundo e de como lidar com ele, a questão é que nossa máquina monstruosa de comunicação é absolutamente incapaz de disseminar essas idéias, de educar, de instruir, de promover autonomia e liberdade. Nos distanciamos completamente de valor da verdade. Mas o que é a verdade afinal? A verdade é um conceito de grupo, quando legitimada por uma comunidade, e em nossa era científica, ela é legítima segundo os critérios da ciência, que incluem a proposição de mecanismos que sejam capazes de reproduzir os fenômenos que queremos explicar quando colocados em teste, experimentados. Logo, desde que se tenha um mecanismo toda e qualquer proposição poderá ser verdadeira, basta que essas propostas sejam experimentadas e validadas pela comunidade. Quando examinadas com rigor uma parte enorme do que se vende como verdade por aí desaba, especialmente, o que se vende como ciência. Na maior parte dos casos trata-se de falácias produzidas em laboratório, pirotecnia, tudo com o objetivo muito claro: vender, vender muito. E se vende é verdadeiro, sem maiores questionamentos. Se considerarmos a sociedade global em que vivemos, um planeta arrasado, por via de regra pequenas bolhas de conforto material cercadas de favelas e refugiados por todos os lados, é claro que grande parte de nossa ciência é falaciosa, pois ela falha em encontrar-se com a realidade, em confrontar o cotidiano e explicar nossos fenômenos, promover a verdade. Outro aspecto desse circo de masturbação tecnológica especializada é que o sistema se retro-alimenta, seleciona a emergência de novas “verdades” segundo critérios muito específicos, só tem espaço informações que confirmem seus valores, que não questionem nada, daí a mediocridade e apatia dos produtores de idéias, que sem a mais pálida noção do que estão fazendo, tem uma única preocupação: aparecer, ocupar espaço na consciência popular falando de assuntos esdrúxulos, masturbatórios, sem qualquer relação com nossa sofrida e urgente realidade. Quando prestamos atenção em tecnologia exótica, personagens fúteis, celebridades inconscientes, entretenimento burro e barato, estamos deixando de discutir o que realmente importa, os abusos que sofremos diariamente, o cotidiano opressivo que afeta a maior parte da humanidade todo santo dia.
Nossa proposta é abandonar a linguagem especializada e seus ciclos viciosos de recompensas burocrático-materiais e “desespecializar”, isto é, aprender a falar em língua de cidadão, utilizar de linguagens artísticas, imbatíveis na capacidade de comunicar, e disseminar a verdade, não qualquer verdade, mas a verdade refletida profundamente, aprendida por experiência, verificada, examinada cuidadosamente, questionada de verdade por todos, por todo e cada cidadão. Artista envolva-se com a ciência, ela precisa de você para se apoderar de informações valiosas que estão escondidas do cidadão, e cientista, envolva-se com a arte, ela pode te ajudar a ver o mundo de uma forma mais ampla e te desenterrar da cova da especialidade que obscurece sua visão sobre o mundo. Desespecializem-se, misturem-se, desenvolvam novas linguagens, troquem informação e acima de tudo: falem para o cidadão, pois vocês não são cidadãos? Com ética, e estética. Com verdade, decência e beleza, é isso que todos nós queremos afinal. Viver não é nem nunca será uma atividade especializada. Como é que fomos cair nessa?