segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Arte, Ciência e Liberdade em Spinoza


"As universidades, que são fundadas a expensas da república, instituem-se não tanto para cultivar os engenhos mas para os restringir. Mas, numa república livre, tanto as ciências como as artes serão otimamente cultivadas se for concedida, a quem quer que peça, autorização para ensinar publicamente, à sua custa e com risco da sua fama. "

Baruch de Spinoza (1632-1677)
Art.49, Cap. VIII, Tratado Político 1677.
Ed. WMF Martins Fontes

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rio das Pedras

DSC08499, upload feito originalmente por tupinago. Foto de Marina Faissal

Ciência e arte é coisa séria

Nos últimos anos observamos o crescimento, ou resgate histórico, de um campo que se define pela mistura da arte e da ciência que recentemente nos séculos XIX e XX foram especializando-se em disciplinas distintas resultando nas classes profissionais especializadas representadas por celebridades. Perfeitas para um esquema industrial de produção artística e científica a serem controlados pelos patrões da indústria farmacêutica e mídia que pela obsessão da acumulação de recursos, a ilusão da seleção natural por competição, perderam completamente o interesse na natureza, na beleza, na verdade, e transformaram-se em máquinas, robotizaram os seres humanos. Construíram um sistema de educação cartesiano e artificial que muito mais se presta a mutilar a criatividade humana e preparar gado para o abate diário das tecnocracias. Com isso, há um endeusamento equivocado da tecnologia e da ciência, o fato de possuirmos máquinas engenhosas não revela nada sobre o que nós somos e o que estamos fazendo aqui. Está proibido o livre pensamento pois isso está reservado aos “filósofos e pensadores”, pessoas destituídas de capacidade prática, inúteis numa sociedade de resultados e pragmatismo como a nossa. Entretanto, a ciência sem a filosofia se torna um ignorante poderoso, uma bomba atômica, um alimento transgênico, uma guerra biológica, máquinas de matar homens e gerar lucro para um pequeno grupo de famílias das elites mundiais.

O mais curioso desse processo é que estamos imobilizados numa organização social absolutamente irracional, auto-destrutiva, geradora de miséria e desastre ambiental como nunca antes visto na história, por sermos incapazes de refletir coletivamente e recuperar modos de vida sustentáveis, que não requerem indústrias, nem patrões, nem shopping centers, mas um viver mais próximo da natureza, em casas, com agricultura comunitária e sustentável, com energia solar, eólica, e etc, com o ser humano devotado a produzir mais conhecimento sobre a natureza e a saúde, numa vida de prazer e verdade. Como as sociedades tradicionais, pré-colonização, antes de passar pela máquina destruidora européia cristã, antes de ser dizimados pelas doenças e armas dos brancos, viviam em harmonia com a natureza. Nós brasileiros, que por improváveis circunstâncias históricas conservamos traços dessa culturas, nos terreiros de candomblé, nas aldeias indígenas que resistem, graças à resistência cultural de mães-de-santo, pajés, rezadeiras, que lutam cada vez mais duramente para conservar nosso patrimônio histórico, cultural, científico. Para virar essa mesa, se faz necessário uma aproximação mais direta e verdadeira com a cultura popular, do conhecimento das tradições, de um entendimento mais profundo e reverente ante a natureza, em outras palavras, boa biologia, que definitivamente está muito mais próxima da arte, da filosofia, que da matemática e da estatística. Do que adianta sermos capazes de sequenciar regiões hipervariáveis de anticorpos de diferentes espécies se não temos uma compreensão adequada do que é o organismo, o sistema imunológico e seus componentes. Os cientistas modernos desenvolveram um conhecimento profundo sobre uma franja de universo e fecharam-se no poder de seus gabinetes e programas de pós-graduação, esqueceram-se de confrontar o mundo, encontrar com a realidade, encarar os fatos, pois além do gabinete, fecharam-se no condomínio burguês da sociedade, pensam que o mundo pode ser vislumbrado e entendido a partir de um laboratório, um apartamento na zona sul e um shopping center. Recuperar a linguagem artística significa dizer recuperar a própria expressão, direito inalienável, sua relação com o mundo, ampliar o repertório de ações e emoções de um indivíduo, quer dizer, possibilitar uma vida mais saudável pois não há ser humano que não crie. A utilização de formas mais amplas de comunicação que contemplem as emoções humanas de maneira mais legítima, processos artísticos, é uma virada fundamental para a construção de uma sociedade mais realista, mais próxima de nossos desejos e necessidades. Pode parecer paradoxal, que uma aproximação com a arte possa nos ajudar a perceber o mundo de forma mais completa, mais adequada, mas se consideramos que a arte é uma forma de conhecimento, produto de investigação, experimentação, informação, que claro, deve ter rigor, pesquisa, honestidade como a própria ciência, veremos que temos um grande benefício a conquistar. Nesse movimento não devemos perder tempo com a futilidade intelectual que domina a arte comercial, a investigação formal pura, a nenhuma relação com o mundo, os psicologismos tolos de gente que não fez o dever de casa, que aparece desproporcionalmente graças a um aparato institucional de controle ideológico de fins econômicos. Quer dizer, é uma associação delicada e improvável a ciência e arte, porém necessária para construção de um mundo possível, para que coloquemos nossas certezas para jogo, nos entreguemos ao momento presente, estando prontos para viver um mundo em constante transformação, para responder com consciência aos desafios do século XXI, enquanto cidadãos, cidade e nação. De algum modo, isso é a vocação do povo brasileiro que já possui uma cultura tradicional e popular das mais exuberantes do mundo, que demonstra saberes conservados através de arte, de dança, de cânticos e isso está longe de ser trivial. Basta que reconheçamos a nós mesmos, reencontremos nossas origens, sem temer que os europocêntricos venham a nos considerar primitivos, canibais, mesmo nossa identidade cultural moderna afirmou a antropofagia como mecanismo de formação cultural de nosso país. Devorem os dogmas colonizadores da mente humana. É preciso apenas conhecer a ti mesmo e enxergar as singularidades que te fazem humano, brasileiro, desse tempo histórico em que vivemos, afirmar nossa auto-estima de povo mestiço, tropical, criativo, sensual, alegre, essa é nossa saúde pública.

Mexer com a relação do nosso conhecimento hegemônico, das cátedras e dos púlpitos, é mexer com o que consideramos de mais confiável, a ciência, e aquilo a que pensamos ser nossa expressão, a arte, é algo fundamental no processo de libertação e autonomia, e ao mesmo tempo, significa recuperar o fazer por prazer em cada atividade humana, trabalhar fazendo festa e fazer festa trabalhando, fazer com arte, buscando as essências, as verdades, os sentimentos mais profundos, é rejeitar a burocracia e a alienação de seus sentimentos em trabalhos, que com a finalidade de gerar lucro, não tem qualquer relação com a natureza e a humanidade. Assim, vejo que não há muita opção se quisermos virar a mesa na direção da saúde pública, da solidariedade, da cidadania, entretanto, devemos reconhecer que isso é necessário e urgente, já que não resta dúvidas que estamos vivendo um dos períodos mais violentos, miseráveis e desequilibrados da história humana, estamos inclusive, destruindo o planeta, extinguindo espécies numa velocidade nunca antes vista. É possível mudar, basta colocar as certezas para jogo e viver o presente, conjugar o verbo estar.


domingo, 23 de agosto de 2009

Faremos Teatro

Está no teatro o poder para transformar a sociedade,

Está no teatro a única mídia popular livre hoje,

Está no teatro a possibilidade,

Está no teatro a magia feita ao vivo, e portanto, mais autêntica,

Está no teatro uma poderosa forma de conhecimento,

Está no teatro o olho no olho, o toque, a troca,

Está no teatro uma forma de organização coletiva,

Está no teatro um grande laboratório de sociedade, assim, a possibilidade de experimentar outras organizações humanas e outras formas de se relacionar com si mesmo, seus pares e o mundo,

Está no teatro as grandes questões da humanidade,

Está no teatro a história de nossa sociedade,

Está no teatro a beleza e o horrendo de ser humano.

Não há outra opção, faremos teatro.


Vitor Pordeus Abril 2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Elegia de 23 de Julho de 2009

O mundo ficou mais triste

depois que ela se foi.

Com sua leveza, sua inteligência,

sua percepção aguda das coisas,

dos homens, do espírito,

dos mistérios das coisas.

Junto com ela

se foi um pouco

de toda a alegria

e humor que há no mundo.

Perdemos um pouco da poesia

que havia aprendido com o maior de nossos poetas.

Perdemos uma irmã de luta, uma inconformada, uma nunca adequada,

uma artista que não se cansou nunca de experimentar, experimentamos juntos, graças a ela me entreguei ao culto do teatro ,

e ao humor como caminho de salvação.

Ela escolheu se retirar de cena

por não poder suportar mais

a mesquinharia de um mundo caduco.

Perdemos uma guia,

tão raros os guias,

que nos apontava sempre para a poesia,

para a possibilidade,

para a vida.

E como há tempos ficou chato ser moderno,

ela finalmente decidiu ficar eterna:

Eterna Duse Naccarati!

--

Rio Julho 2009,

Vitor Pordeus

sábado, 20 de junho de 2009

Iniciativa Laboratório Tupi-Nagô: Arte e Ciência, misturadas, para o cidadão

Depois de um século XX de dadaísmo, construtivismo, tropicalismo e outros ismos. Depois de duas bombas atômicas, do projeto genoma, da clonagem de grandes mamíferos. Depois da explosão de conhecimento especializado das super universidades, dos renomados super-especialistas que são capazes de resolver qualquer coisa, fica uma pergunta: e o cidadão? Esse anda mal, anda agredido e assassinado por políticas de estados facistas, mal-informado por uma mídia mentirosa, enganado por uma classe política corrupta, mal-tratado por uma medicina tecnológica caríssima e negligente. Como será isso possível se temos tanto conhecimento sobre tudo, se descobrimos os segredos mais profundos das moléculas, dos matizes de cor, da hipnose marketológica que determina os desejos e afetos? Temos uma montanha de conhecimento especializado e ainda assim, muito pouca compreensão sobre o que nós somos, o que é o nosso meio-ambiente e nossa sociedade.
Há excelentes idéias sobre nossa verdadeira natureza, sobre o que é o nosso mundo e de como lidar com ele, a questão é que nossa máquina monstruosa de comunicação é absolutamente incapaz de disseminar essas idéias, de educar, de instruir, de promover autonomia e liberdade. Nos distanciamos completamente de valor da verdade. Mas o que é a verdade afinal? A verdade é um conceito de grupo, quando legitimada por uma comunidade, e em nossa era científica, ela é legítima segundo os critérios da ciência, que incluem a proposição de mecanismos que sejam capazes de reproduzir os fenômenos que queremos explicar quando colocados em teste, experimentados. Logo, desde que se tenha um mecanismo toda e qualquer proposição poderá ser verdadeira, basta que essas propostas sejam experimentadas e validadas pela comunidade. Quando examinadas com rigor uma parte enorme do que se vende como verdade por aí desaba, especialmente, o que se vende como ciência. Na maior parte dos casos trata-se de falácias produzidas em laboratório, pirotecnia, tudo com o objetivo muito claro: vender, vender muito. E se vende é verdadeiro, sem maiores questionamentos. Se considerarmos a sociedade global em que vivemos, um planeta arrasado, por via de regra pequenas bolhas de conforto material cercadas de favelas e refugiados por todos os lados, é claro que grande parte de nossa ciência é falaciosa, pois ela falha em encontrar-se com a realidade, em confrontar o cotidiano e explicar nossos fenômenos, promover a verdade. Outro aspecto desse circo de masturbação tecnológica especializada é que o sistema se retro-alimenta, seleciona a emergência de novas “verdades” segundo critérios muito específicos, só tem espaço informações que confirmem seus valores, que não questionem nada, daí a mediocridade e apatia dos produtores de idéias, que sem a mais pálida noção do que estão fazendo, tem uma única preocupação: aparecer, ocupar espaço na consciência popular falando de assuntos esdrúxulos, masturbatórios, sem qualquer relação com nossa sofrida e urgente realidade. Quando prestamos atenção em tecnologia exótica, personagens fúteis, celebridades inconscientes, entretenimento burro e barato, estamos deixando de discutir o que realmente importa, os abusos que sofremos diariamente, o cotidiano opressivo que afeta a maior parte da humanidade todo santo dia.
Nossa proposta é abandonar a linguagem especializada e seus ciclos viciosos de recompensas burocrático-materiais e “desespecializar”, isto é, aprender a falar em língua de cidadão, utilizar de linguagens artísticas, imbatíveis na capacidade de comunicar, e disseminar a verdade, não qualquer verdade, mas a verdade refletida profundamente, aprendida por experiência, verificada, examinada cuidadosamente, questionada de verdade por todos, por todo e cada cidadão. Artista envolva-se com a ciência, ela precisa de você para se apoderar de informações valiosas que estão escondidas do cidadão, e cientista, envolva-se com a arte, ela pode te ajudar a ver o mundo de uma forma mais ampla e te desenterrar da cova da especialidade que obscurece sua visão sobre o mundo. Desespecializem-se, misturem-se, desenvolvam novas linguagens, troquem informação e acima de tudo: falem para o cidadão, pois vocês não são cidadãos? Com ética, e estética. Com verdade, decência e beleza, é isso que todos nós queremos afinal. Viver não é nem nunca será uma atividade especializada. Como é que fomos cair nessa?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Carnavalização como linguagem de construção da saúde

1- Fonte: Bakhtin M. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento Ed. UNB
Na realidade, a função do grotesco é liberar o homem das formas de necessidade inumana em que se baseia a idéia dominante sobre o mundo.
O grotesco derruba essa necessidade e descobre seu caráter relativo e limitado.
A necessidade apresenta-se num determinado momento como algo sério, incondicional e peremptório. Mas historicamente as idéias de necessidade são sempre relativas e versáteis. O riso e a visão carnavalesca do mundo, que estão na base do grotesco, destroem a seriedade unilateral e as pretensões de significação incondicional e intemporal e liberam a consciência, o pensamento e a imaginação humana, que ficam assim disponíveis para o desenvolvimento de novas possibilidades. Daí que uma certa “carnavalização” da consciência precede e prepara sempre as grandes transformações, mesmo no domínio cientifico.


2- Fonte: Berthold M. História Mundial do Teatro Ed. Perspectiva
Comedia dell’ arte – Comedia da habilidade. Isto que dizer arte mimética segunda a inspiração do momento, improvisação ágil, rude e burlesca, jogo teatro primitivo tal como na Antiguidade os atelanos haviam apresentando em seus palcos itinerantes: o grotesco de tipos segundo esquemas básicos de conflitos humanos, demasiadamente humanos, a inesgotável, infinitamente variável e, em última análise, sempre inalterada matéria prima dos comediantes no grande teatro do mundo. Mas isto também significa domínio artístico dos meios de expressão do corpo, reservatórios de cenas prontas para apresentação e modelos de situações, combinações engenhosas, adaptação espontânea do gracejo do momento.