segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Carta aqueles que sofrem ou Liberdade já: só não pode ferir a ética nem a vida.

Carta aqueles que sofrem ou Liberdade já: só não pode ferir a ética nem a vida.

 

Irmãos que sofrem, irmão que estão em pior situação, não se desesperem, nós, o povo brasileiro, resistimos, estamos resistindo e vamos continuar resistindo. O resultado disso é o processo civilizatório atravessado pela violência, o caos urbano, o abuso, o medo e a desesperança da maioria, dominados por um poderoso sistema de imbecilização humana, montado com celebridades feitas em laboratório e cultura de máquina, que infiltra o cérebro de classes inteiras que vão convertendo-se a seres humanos cada vez mais servis encontrando no álcool e no crack uma saída viável para tanta miséria.

As pressões destrutivas são muitas e muito poderosas, é preciso que aprendas a pensar, que aprendas a refletir sobre seus problemas em conjunto, coletivamente se debruçar sobre aquilo que impede a vida justa e livre na Terra. Ver que nossos problemas são velhos e tem soluções conhecidas. Que há outras maneiras de se pensar, explicar e expressar o mundo, abrindo toda uma quantidade de soluções tecnológicas já disponíveis que impactariam de forma definitiva na vida das grandes populações pobres, oprimidas, sem oportunidades de se desenvolver e ir a diante.

Tudo isso em nome de um projeto científico de nação colonizador, rigorosamente importado, com roupas importadas, shoppings importados, cultura importada, ciência importada, estereótipos estéticos importados, padrão de beleza importado e nenhuma honestidade pois seus agentes e representantes em solo nacional avançam por cima do povo sem respeitá-lo em nenhum espaço. Ou se juntam ao modo de vida predatório e consumista, ou é destruído pela máquina, sendo necessário para sobreviver verdadeiro rigor intelectual, disciplina espiritual para se distinguir a verdade sobre a natureza e a farsa autoritária que se ergueu sobre o ocidente.

 

Só a antropofagia nos une. Cientificamente. Ideologicamente. Nós somos um povo resistente que fez a cultura popular mais exuberante do mundo a revelia dessa invasão colonizatória que apesar de viver nababescamente nunca teve competência cultural de desbancar as manifestações corporais, antropológicas, espirituais, humanas que nos distinguem enquanto povo, enquanto nação mestiça composta por todos os povos da Terra, singularidade viva, povo formado pelas forças da história e do inconsciente coletivo, herdeiro de arquétipos de grandes culturas, caldeirão de experimento cultural e antropológico que revela aquilo que sabemos nos fazer orgulho de sermos brasileiros, nosso afeto, nossas relações humanas, nossa conexão com a natureza e suas forças sagradas, nossa tolerância, muitas vezes excessiva e permissiva, colonial, inferiorizada por esse mecanismo artificial produzido pelo marketing cultural que invadiu todos os espaços.

 

Para mudar é necessário mudar o conhecimento. O conhecimento, os modelos, os paradigmas científicos de nossa era é quem informam e endossam as ações dos cidadãos da classe gestora que oriundos das universidades, por sua vez só acessíveis às classes privilegiadas, decidem o destino das cidades e das nações com base em sua visão de mundo estreita e gananciosa, sempre pautada por um projeto pessoal de poder e de colonização do país inclusive com remessas de dinheiro ao exterior e submissão comercial, cultural e científica. O que vem de fora é sempre melhor. Com isso somos forçados a submergir todo um conjunto de talentos humanos, patrimônios científicos e culturais inteiros de um país de gigantesca singularidade como o Brasil. E assim essa nação desconhece que produziu gênios e revoluções, e nomes como Paulo Freire, Nise da Silveira, Augusto Boal, Haity Moussatché, Nelson Vaz, Amir Haddad, Milton Santos, e tantos outros brasileiros, que nunca nem saberemos os nomes, e que seu povo está historicamente anestesiado e impedido de sabe-los, porque eles, em certo momento de suas carreiras, decidiram trilhar o caminho a favor da humanidade, da vida, da natureza.

 

 - Nise, aperte o botão.

 

 - Não aperto.

 

 - Como assim? Você tem que aplicar a eletroconvulsoterapia.

 

- Não aperto. Não sou capaz de infligir uma violência a outro ser.

 

E aí começou a rebelde. E a cientista brasileira fez luz nas trevas. Transformou seu impulso rebelde num dos mais importantes métodos de promoção da saúde humana do mundo, com impressionantes resultados, únicos, no campo da esquizofrenia crônica e corroborado com outros autores, na saúde humana, disponível no maior museu de arte e loucura do mundo, o Museu de Imagens do Inconsciente, com mais de 350 mil obras, no Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro.

O exercício criativo é essencial para a saúde humana, para a prática da liberdade, para a superação da opressão, e a habilidade de criar e recriar o mundo a sua volta.

Não há dúvidas, é possível, é uma questão de linguagem, mudanças na linguagem, mudanças nas coordenações de conduta, nas palavras, nos conjuntos de ideias, nos paradigmas científicos que, volto a dizer, impregnam as mentes e os corações. Esta muito mais perto do que pensamos. Está perto, dentro de cada um, as forças autocurativas, as forças autoprodutivas, a organização do vivo e todas as suas manifestações. É esse o princípio vital ordenador que nos empurra para nossas vocações como o prazer da companhia, a poesia, a música, o teatro, a medicina, a alegria, a cura. Não há dúvidas, a experiência demonstra. Espalhem a mensagem.


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Vitor Pordeus

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Retreta do Apocalipse promove saúde cultural na Cruzada São Sebastião no Leblon no último domingo.

No último domingo, 21 de agosto, o Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde realizou ensaio com o Conjunto Experimental Retreta do Apocalise e o Teatro de Revista Científica na Cruzada São Sebastião no Leblon como atividade de preparação para a grande Celebração da Saúde e da Cidadania a ser realizada com essa importante comunidade carioca em Outubro por iniciativa do Programa de Saúde da Família da Cruzada São Sebastião através de sua Gerente Lara Lima e apoio da Coordenadora da Área Paula Travassos. Esse convite revelou uma das histórias mais fortes de luta e resistência de uma comunidade contra os abusos e desmandos de uma urbanização desordenada, comandada pela especulação imobiliária e não pelo respeito ao ser humano. A Cruzada é propriamente produto de uma luta de proporções épicas lideradas por um profeta, um homem santo de nosso tempo, o Irmão dos Pobres, o arcebispo católico cearense, Dom Helder Câmara, que empreendeu luta de vida inteira em favor dos oprimidos, indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz, perseguido pela ditadura militar, foi removido à força do Rio de Janeiro para Recife, foi censurado, banido da mídia brasileira pelos militares, e resistiu sempre a favor daqueles que a sociedade decidiu, nas altas rodas, remover para regiões remotas da cidade, arrancando comunidades inteiras de suas raízes, história e patrimônio cultural. Além de toda uma teia complicada de casos de incêndios criminosos e ataques às comunidades que compunham a Favela da Praia do Pinto, que tinha na época de fundação da Cruzada, 1957, sete mil moradores, mas que cresceu muito apesar das remoções para a própria Cruzada São Sebastião, liderada por Dom Hélder, e através das gestões do governo do estado da Guanabara e depois, estado Rio para outras COHABs como a Cidade de Deus, a Vila Kennedy, entre outras. Casos de comunidades inteiras forçadas abandonarem seus locais de residência com a formação, desde antes de então, de comunidades "guetizadas", subúrbios distantes, composta por descendentes de escravos, e posteriormente nordestinos, isoladas geograficamente e culturalmente das "altas" sociedade e cultura , que vão lutando e resistindo para construirem-se a revelia do processo de marginalização e opressão, cujo reflexo mais cruel é a extrema violência e degradação humana que tais comunidades "guetizadas" da cidade sistematicamente exibem, com imediato reflexo na saúde pública e na qualidade de vida desses cidadãos. Com a Cruzada São Sebastião, uma comunidade singularíssima por sua história, observamos e estamos trabalhando nos paralelos e divergências das histórias das comunidades cariocas. Com foco nas manifestações culturais e patrimônio principalmente humano preservado nessas coletividades como ferramenta de promoção da saúde, educação popular e cidadania.
Devemos sublinhar que estamos falando de uma importantíssima matriz do povo brasileiro e de capítulos históricos da vida recente brasileira e carioca. Estamos trabalhando com matrizes resistentes da cultura brasileira, responsáveis por aspectos fundadores de nossos costumes como o Samba, o Carnaval, as Escolas de Samba, o movimento musical e artístico, religioso, as estratégias de organização comunitária adotadas pelo grupo de Dom Hélder e pelas próprias mulheres da comunidade.
Estamos trabalhando com um especial grupo de mulheres, matriarcas dessa comunidade, que contam uma história de lutas, fé, solidariedade, companherismo, a luta de um povo em formação contra uma máquina colonizatória violenta e racista, que impede o desenvolvimento do povo brasileiro aos seus plenos pulmões, pois importa um modelo de ser humano que já está mais do que caduco, está destruindo a humanidade e o planeta.
Na Celebração da Saúde de Outubro, apresentaremos essa história narrada em nosso Teatro de Revista Científica e com composições e direção musical de Alexandre Schubert e com a Música executada pela aclamada Retreta do Apocalipse. Apresentando os personagens dessa história nossa, com a cantora descoberta no grupo das Mães da Cruzada, Arlete dos Santos que aos 78 anos preserva uma memória musica e uma voz de cantora guerreira.
Quem viver, verá. Os Agentes Culturais de Saúde e os demais profissionais de saúde são bem vindos para participar e contribuir com essa construção possível de nosso espetáculo teatral público, nossa Liturgia.
Participaram do ensaio os músicos retreteiros, Dudu Louro no teclado, Azael Neto na Guitarra, Marina Bonfim na Flauta, Emerson Costa no Saxofone, André Silvestre na Bateria, César Bonam no Clarinete, Luiz Conceição no Baixo e Reinaldo Godoy no Trompete, o Maestro Alexandre Schubert, o facilitador Vitor Pordeus, Joel Ribeiro na produção, a fotógrafa Marina Faissal dessa vez filmando,  Marcinha Fraga nas fotos em anexo e outros moradores da Cruzada como Dona Irene e seu filho Sami, o Presidente da Associação de Moradores da Cruzada que inclusive tem um Museu virtual sobre a Cruzada, Joel Nonato, Dona Geneci, Dona Dulce, Dona Conceição, e outros moradores como Seu Pereira que apareceram de surpresa. Foi uma festa com Arlete cantando músicas históricas da Favela da Praia do Pinto e da Cruzada como "Obrigado Reverendo" homenagem feita a Dom Hélder quando removido para Recife. Produzimos saúde cultural numa tarde chuvosa na Cruzada São Sebastião no Leblon. 
As reuniões tem sido as quintas feiras, 17 horas, no Bloco 6 e os ensaios aos domingos 14 horas de 15 em 15 dias até outubro quando apresentaremos nossos experimentos ao público. Informações e confirmações: 29761662, Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde.
Saúde cultural pública. Estamos construindo o possível.

Vitor Pordeus
Agente Cultural de Saúde e Repórter Cidadão Científico
Universidade Popular de Arte e Ciência.
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Vitor Pordeus
Facilitador
Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde
Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil
Rua Afonso Cavalcanti, 455/ 701, Bloco I, Cidade Nova CEP 20211-110
Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
tel/fax: 55-21-29761662
culturaeciencia@smsdc.rio.rj.gov.br
http://nccsrio.blogspot.com
http://twitter.com/nccssmsdc
http://universidadepopulararteciencia.blogspot.com

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

1o Congresso Aberto da Universidade Popular de Arte e Ciência



O CAOS APARENTE E O ENTENDIMENTO HUMANO
Por Ray Lima



O primeiro congresso da Universidade Popular de Arte, Ciência e Cultura ocorrido nos dias 7 e 8 de julho de 2011, no Teatro Carlos Gomes, Rio de Janeiro, demonstrou que em alguma medida estamos construindo espaços de comunicação e entendimento humano capazes de minimizar o quadro atual de diáspora, indiferença e produção da violência entre as pessoas e entre estas e os ambientes naturais. Diante desse contexto “só os lacaios ficam indiferentes.”

Por um lado, o diferencial se deu pelo ritual de horizontalidade que o encontro produziu. Também pelo fato de não se partir de discursos premeditados, impregnados de certezas e lugares comuns como palestras e oficinas amarrados em uma programação rígida e desigual, como é comum aos congressos, simpósios e seminários, onde a maior parte do tempo é reservada aos medalhões e “detentores do conhecimento.” Por outro lado, mesmo se tratando de um espaço fechado, separatista como é o palco italiano, que divide os atores do público, criando um fosso claro entre os que atuam, produzem, encantam e os que assistem passivamente e admiram o espetáculo, essa lógica foi quebrada por conta da intencionalidade e da cultura de rompimento com o status quo, com o estabelecido por parte tanto dos que organizaram quanto daqueles que participaram desta festa reflexiva, arte-científica, popular e produtora de sentidos.

Uma festa anímica e alquímica onde se cruzaram Mãe Tânia com Vera Dantas, Nelson Vaz com Amir Haddad, José Pacheco com Ângela Antunes e Vitor Pordeus, Júnio Santos com Heloísa Helena e Sérgio, Francisco Gregório com o samba e o candomblé. O que vivenciamos no Teatro Carlos Gomes foi uma profusão de linguagens manifestando sentimentos de mundo articulados às práticas cotidianas de cada experiência ali presentificadas no tempo livre dos atos manifestos que iam dando sentido ao que podemos considerar libertador, vital. Na verdade, uma jornada de “discursos inspiradores”, no dizer de Vitor Pordeus, entrecruzando saberes diversos e modos de dizer que poderia se realizar no morro do Pavão Pavãovinho ou do Urubu-RJ, no Conjunto Palmeiras-Fortaleza-CE, nas praças de Janduís-RN, na África, na Índia em quaisquer lugares investido de vontade política.

Um verdadeiro Escambo, uma travessia do mundo cartesiano, fechado e previsível ao universo simbólico, aberto e imprevisível das artes e das manifestações populares. Aprendemos que a partir do simples alimentamos grandes sonhos, que é daí que grandes rios, lagos e oceanos surgem e são realimentados constantemente. Um encontro re-humanizante, uma manifestação da experiência coletiva e do saber singular dos sujeitos imbricados na tarefa de repensar e reconstruir os caminhos da arte, da ciência, da vida; a expressão do desejo de transformação de uma sociedade doente que insiste em conservar suas feridas com placas de gordura ou drogas paliativas que submetem populações inteiras a migalhas descartáveis de consumo fácil e irresponsável.

Mais do que um congresso, um congraçamento, deixando a gente acreditar que em meio ao aparente caos é possível extrair daí o entendimento necessário à vida em sociedade.



“os espaços têm cheios[i]

vãos se fuis, pontas e meios

veias e veios

vazios não vazios não



os espaços da vida

os espaços têm vida

não são em vão

vazios não vazios não vazios